Meio Ambiente, PPGAD

Plantios de árvores exóticas padronizam a forma de libélulas na Mata Atlântica gaúcha

Por Lucas George Wendt

|

Postado em: 15/09/2026, 11:00:00

|

Atualizado em: 15/09/2026, 11:38:14

Compartilhe

Um estudo conduzido no Rio Grande do Sul revelou que a substituição de florestas nativas por plantios comerciais de árvores está deixando as assembleias de libélulas mais parecidas entre si. A pesquisa, publicada em junho de 2026 no periódico científico Journal of Insect Conservation, comparou duas espécies de donzelinhas, pequenas libélulas da subordem Zygoptera, que vivem em remanescentes de Floresta Ombrófila Mista, também chamada de mata de araucárias, e em áreas de plantio florestal dentro da Floresta Nacional de São Francisco de Paula, no nordeste gaúcho. Os resultados indicam que, quanto mais simplificado o ambiente, menor a diversidade de formas e tamanhos corporais dos insetos, um fenômeno que pode comprometer funções ecológicas relacionadas à interface entre ambientes aquáticos e terrestres.

O trabalho foi assinado por Mateus Marques Pires, Giulia Wommer, Cléber Sganzerla e Eduardo Périco, todos vinculados ao Laboratório de Ecologia e Evolução (LABEEV) do Museu de Ciências e do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento da Universidade do Vale do Taquari - Univates, e por Göran Sahlén, pesquisador da área de Ciências Ambientais e Biológicas da Escola de Negócios, Inovação e Sustentabilidade da Universidade de Halmstad, na Suécia. O estudo teve financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e foi autorizado pelos órgãos ambientais brasileiros responsáveis pela coleta de espécimes silvestres.

Eric Haley (Wikimedia Commons)

Exemplar do gênero Telebasis

Bernard Dupont (Wikimedia Commons)

Exemplar do gênero Acanthagrion

O que a pesquisa descobriu

O objeto da investigação foram duas espécies de donzelinhas amplamente distribuídas na América do Sul: Acanthagrion lancea e Telebasis carmesina, ambas da família Coenagrionidae. Os pesquisadores mediram sete características morfológicas dos insetos – comprimento do corpo, largura da cabeça, largura do tórax, comprimento abdominal e o comprimento e a largura das asas anteriores e posteriores – e, a partir delas, calcularam também a área e a razão de aspecto (proporção entre envergadura e área) das asas.

A hipótese de partida era relativamente simples: se os plantios florestais oferecem um ambiente mais uniforme e menos complexo que a mata nativa, seria esperado que os insetos que ali vivem apresentassem menor variação nas características físicas, refletindo uma seleção por um conjunto mais restrito de “formas corporais” compatíveis com esse tipo de hábitat. A expectativa se confirmou. Segundo os autores, os padrões de variação dos traços diferiram significativamente entre os dois tipos de floresta nas duas espécies estudadas, e essa variação foi sistematicamente menor nos plantios do que na mata nativa.

Além da queda na variabilidade, os cientistas encontraram diferenças diretas nos valores médios de alguns traços, mesmo depois de descontado o efeito do tamanho corporal de cada indivíduo. Na A. lancea, espécimes de tamanho semelhante apresentaram tórax mais largo e maior área das asas anteriores e posteriores na mata nativa, enquanto os abdomens foram significativamente mais longos nos plantios. Já a T. carmesina mostrou maior área e razão de aspecto da asa posterior nas áreas de plantio. Em ambas as espécies, um padrão se destacou: asas maiores e com razão de aspecto mais baixa predominaram na floresta nativa, enquanto os plantios favoreceram insetos com asas relativamente menores e mais estreitas.

Divulgação/Os autores

Imagem da área do estudo

Por que isso importa

Donzelinhas e libélulas em geral são insetos fortemente dependentes de ambientes florestados, que oferecem abrigo para descanso, alimentação e reprodução. Por terem corpos pequenos e abdomens finos, ficam especialmente sujeitas ao superaquecimento ou à desidratação, o que torna a morfologia, sobretudo de cabeça, tórax e asas, determinante para a sobrevivência em diferentes tipos de hábitat. O tamanho da cabeça está relacionado a respostas comportamentais diante de predadores; o tórax é peça-chave na termorregulação e na capacidade de voo; e as asas cumprem papel simultâneo na dissipação de calor, na absorção solar e no controle da temperatura corporal durante o voo e o repouso.

A relação estreita com o ambiente florestal faz das donzelinhas um elo importante entre ecossistemas aquáticos e terrestres, contribuindo para o transporte de energia e nutrientes entre a água e a terra. Por isso, uma redução na diversidade morfológica dessas populações pode indicar perda de capacidade adaptativa da espécie diante de mudanças ambientais e comprometer processos ecológicos mais amplos, como a ciclagem de nutrientes e a estabilidade das teias alimentares na zona de transição entre lagos e florestas.

Os autores explicam a relação na seção de implicações para a conservação de insetos, argumentando que plantios florestais, ao simplificar a estrutura do hábitat, favorecem a ocorrência de populações de donzelinhas com menor diversidade morfológica, o que compromete tanto a capacidade adaptativa dessas populações quanto processos ecológicos relevantes na interface entre água e terra.

O coordenador do LABEEV, professor Eduardo Périco, explica que esses resultados são particularmente importantes para a conservação da Mata Atlântica e da Floresta Ombrófila Mista, pois indicam que a manutenção de remanescentes de vegetação nativa é fundamental não apenas para preservar espécies, mas também para assegurar a diversidade de atributos e funções ecológicas que sustentam a conectividade entre ambientes aquáticos e terrestres, a ciclagem de nutrientes e a estabilidade dos ecossistemas. Assim, o trabalho fornece evidências científicas relevantes para o planejamento da conservação, o manejo de paisagens florestais e a avaliação dos impactos de monoculturas sobre a integridade ecológica. 

O tema ganha peso adicional quando se considera o cenário da Mata Atlântica, um dos hotspots de biodiversidade do planeta, hoje reduzida a menos de 10% de sua extensão original. No caso específico da Floresta Ombrófila Mista, a fisionomia de araucárias típica do Sul do Brasil, estudos indicam que restam cerca de 12% da cobertura original no País, sendo que menos de 1% dessa área remanescente corresponde a florestas primárias bem conservadas. A expansão de plantios florestais de espécies nativas e exóticas para produção de madeira é apontada pelos pesquisadores como um dos principais vetores dessa perda de hábitat, com pouca pesquisa disponível sobre seus efeitos específicos em insetos aquáticos, historicamente menos estudados do que grupos terrestres como besouros, formigas e abelhas.

Divulgação/Os autores

Imagem da área do estudo

Como o estudo foi feito

A coleta de dados ocorreu na Floresta Nacional de São Francisco de Paula (Flona/SFP), unidade de conservação de uso sustentável com 1.606 hectares, localizada a cerca de mil metros de altitude no planalto gaúcho, região de clima subtropical úmido, com invernos frios e verões amenos. A unidade abriga o maior remanescente de Floresta Ombrófila Mista do Estado, ao lado de áreas menores de plantios de araucária nativa e de pínus, espécie exótica cultivada para fins madeireiros.

Os pesquisadores selecionaram cinco lagos dentro da unidade de conservação, sendo três cercados predominantemente por plantios florestais e dois por remanescentes de mata nativa. A classificação do tipo de vegetação dominante em cada lago foi feita tanto por observação direta em campo, verificando a vegetação da zona ripária, quanto por meio de mapas de cobertura do solo do projeto MapBiomas referentes a 2022, analisando uma área de 200 metros de raio ao redor de cada lago. Antes de associar as diferenças morfológicas ao tipo de floresta, a equipe também testou estatisticamente se a distribuição geográfica dos lagos poderia, por si só, explicar as diferenças observadas. Um teste de autocorrelação espacial não encontrou esse tipo de influência, o que assegurou a interpretação de que as diferenças morfológicas decorrem do tipo de hábitat, e não da posição geográfica dos pontos de coleta.

As coletas de espécimes adultos ocorreram entre janeiro e maio de 2022, no verão e outono austrais, sempre em dias ensolarados, entre 9h e 16h. Duplas de pesquisadores percorreram uma faixa de 15 metros ao redor de cada lago durante 20 minutos por local, usando redes entomológicas manuais. Os insetos capturados foram fixados em álcool 70% e identificados até o nível de espécie com o auxílio de guias específicos para a odonatofauna brasileira, sendo posteriormente depositados no Museu de Ciências da Univates. 

Do conjunto total de espécimes coletados, os cientistas selecionaram aleatoriamente entre um e seis machos não danificados de cada espécie por lago, restringindo a análise a exemplares masculinos para evitar possíveis efeitos de dimorfismo sexual sobre os resultados. Ao final, a amostra somou 24 indivíduos de Acanthagrion lancea e 20 de Telebasis carmesina. Cada exemplar teve sete medidas corporais registradas com o uso de um paquímetro digital de precisão de 0,01 milímetro, incluindo comprimento e largura de estruturas do corpo e das asas.

A análise estatística combinou diferentes abordagens complementares. Inicialmente, os pesquisadores investigaram correlações entre os traços medidos e utilizaram uma análise de componentes principais (PCA) para visualizar como os indivíduos de cada espécie se distribuíam conforme o tipo de floresta. Em seguida, aplicaram dois testes multivariados específicos para avaliar diferenças na variabilidade morfológica: o teste de Mantel, que compara padrões de covariação entre os traços em cada ambiente, e a análise de dispersão multivariada (PERMDISP), que avalia se a homogeneidade da variação nos traços difere entre os grupos, nesse caso, entre floresta nativa e plantio. 

Por fim, a equipe recorreu a modelos de análise de covariância (ANCOVA), utilizando o comprimento total do corpo como indicador do tamanho de cada indivíduo, para verificar se havia diferenças nas médias dos traços entre os tipos de floresta mesmo depois de descontado o efeito do tamanho corporal. Como o estudo testou repetidamente hipóteses semelhantes para diferentes variáveis, os pesquisadores também aplicaram uma correção estatística (taxa de descoberta falsa, ou FDR) para reduzir o risco de identificar diferenças significativas por acaso. Todas as análises foram realizadas no software estatístico R.

Possíveis explicações biológicas

Os autores discutem no artigo diferentes hipóteses para explicar por que os plantios favorecem insetos morfologicamente mais uniformes e com características distintas da mata nativa. Uma delas envolve a dispersão. Como os plantios apresentam árvores mais espaçadas e uniformemente distribuídas do que a mata nativa, asas com razão de aspecto mais alta, vantajosas para voos de longa distância e mais eficientes energeticamente em ambientes abertos, poderiam ser favorecidas nesses locais, enquanto florestas mais fechadas favoreceriam asas adaptadas a voos curtos e maior manobrabilidade.

Outra hipótese está relacionada à predação. Ambientes mais abertos, como os plantios, tendem a expor os insetos a maior número de aves predadoras, o que pode selecionar formatos de asa que favoreçam fuga rápida. Uma terceira explicação envolve a termorregulação: como os plantios costumam ter dossel mais aberto e, consequentemente, temperaturas mais altas do que a mata nativa, mudanças na forma do abdômen e do tórax poderiam refletir pressões seletivas ligadas ao controle da temperatura corporal e ao equilíbrio hídrico dos insetos. Segundo essa lógica, abdomens mais longos nos plantios ajudariam a dissipar calor e evitar o superaquecimento, enquanto tórax mais largo na mata nativa favoreceria a manutenção da temperatura corporal em ambientes mais úmidos e frios.

Como perspectiva de continuidade, um outro projeto em andamento, vinculado à tese de doutorado de Cléber Sganzerla, orientado pelo professor Périco, visa a verificar a variabilidade genética de duas espécies de libélulas e relacionar isso à capacidade de dispersão das espécies, o que permitiria entender o papel do fluxo gênico nas diferenças morfológicas encontradas em campo.

Referência 

PIRES, Mateus Marques et al. Exotic tree plantations drive reduction in morphological variation of damselfly species in the southern Brazilian Atlantic Forest. Journal of Insect Conservation, v. 29, n. 3, p. 49, 2025. DOI: https://doi.org/10.1007/s10841-025-00685-5.  

Divulgação

Glossário

Assembleia: em ecologia, assembleia é um grupo de espécies de um mesmo grupo taxonômico que vivem no mesmo local e período, podendo interagir entre si.

Coenagrionidae: família de libélulas da subordem Zygoptera (donzelinhas), caracterizadas por corpo delgado e, geralmente, pequeno porte.

Donzelinha (Zygoptera): subordem da ordem Odonata que reúne as libélulas de corpo fino, que mantêm as asas fechadas ou semiabertas quando em repouso, diferentemente das libélulas “verdadeiras” (Anisoptera).

Floresta Ombrófila Mista (mata de araucárias): fitofisionomia típica do Sul do Brasil, caracterizada pela presença marcante da araucária (Araucaria angustifolia) associada a espécies de origem tropical e temperada.

Variação intraespecífica: diferenças morfológicas, fisiológicas ou comportamentais entre indivíduos de uma mesma espécie, relevantes para entender sua capacidade de adaptação a diferentes ambientes.

Morfometria: conjunto de técnicas usadas para medir e analisar quantitativamente a forma e o tamanho de organismos.

Razão de aspecto (da asa): medida que relaciona a envergadura ao comprimento e à área da asa, associada ao desempenho de voo: valores mais altos favorecem voos longos e eficientes; valores mais baixos favorecem manobrabilidade.

ANCOVA (Análise de Covariância): método estatístico que permite comparar médias entre grupos (neste caso, tipos de floresta) enquanto controla o efeito de uma variável contínua (neste caso, o tamanho corporal).

PCA (Análise de Componentes Principais): técnica estatística que resume múltiplas variáveis correlacionadas em poucos eixos (componentes), facilitando a visualização de padrões de variação em um conjunto de dados.

PERMDISP (dispersão multivariada por permutação): teste estatístico que avalia se a variabilidade (dispersão) de um conjunto de variáveis difere entre grupos predefinidos.

Teste de Mantel: método estatístico usado para comparar a semelhança entre duas matrizes de dados, aqui aplicado à comparação de padrões de covariação entre traços morfológicos em diferentes ambientes.

MapBiomas: iniciativa colaborativa que produz mapas anuais de cobertura e uso do solo no Brasil a partir de imagens de satélite, usada no estudo para classificar a vegetação predominante ao redor de cada lago.

Termorregulação: capacidade de um organismo de regular sua temperatura corporal, especialmente relevante em insetos ectotérmicos como as libélulas, cuja temperatura depende em grande parte do ambiente.

Hábitat ripário (ou zona ripária): faixa de vegetação situada às margens de rios, lagos ou outros corpos d’água, com papel importante na proteção de ecossistemas aquáticos.

Fique por dentro de tudo o que acontece na Univates. Escolha um dos canais para receber as novidades:

Compartilhe

topo
voltar